Poesias,contos e crônicas de amigos

 

 

Janeiro o ano inteiro

 

O meu rio tem uma margem só. Ele vê tudo azul e preto e carrega as dificuldades do mundo nas costas. Há quem diga que ele é alegre, mas acho-o muito mais casmurro.Isso, admito, não o impede de continuar lindo e rindo. Tomemos os exemplos do porto;na arca está a riqueza.

Arenoso, o meu rio não banha as cidades de São Paulo e Lisboa, e sim é banhado por  elas. Aliás ― vejam  só  a  língua  portuguesa ―  nele  há mais  esses  do  que  erres, enquanto  em  São  Paulo  há  mais  erres  do  que  esses.  Ele irradia  luz  de  candeias  e sombras de cadeias, principalmente sobre os cortiços em volta.

Depois da morte  de  Rubem  Braga,  os  problemas  alastraram-se,  crônicos. Algo falta ao rio. Não me refiro às araras, tucanos e canários, maravilhosos sim, mas eles não escrevem. Defuntos escrevem, mas aves não, embora ultimamente os defuntos  tenham morrido. Refiro-me  ao que  fazemos  com  a biblioteca de Babel,  instalada  ali, na parte branca  das  águas,  entupida  de  qualquer  coisa,  pois  não  se  falam  do  rio  como antigamente. Falta espírito santo.

Ao menos  a  ele  não  falta  sangue,  de  hemácias  amarelas.  É  uma  compensaçãoperante o  sufoco do  rio: quanto mais banho  eu  tomo, mais  eu  suo,  talvez por  isso os portugueses lavavam-se com pouca frequência. Imagino o patrício atracar na terra onde pagando  todos dão, vendo o  índio  assear-se dez vezes ao dia,  tolice de povo bárbaro.

Levemos cultura aos selvagens. Se não adianta limpar, limita-se a limpeza aos sábados. Assim, prepara-se o corpo para a missa dominical e economiza-se água. Sempre  que  encontrar  o meu  rio,  vai  vê-lo  de  braços  abertos,  crânios  abertos, feridas abertas. Quando você chegar, os  jacarés vão abanar o  rabo, e as  serpentes vão esfregar as mãos. Acerte o seu relógio com o horário local. No meu rio é janeiro o ano inteiro.

 

Guilherme Sousa Rocha

 

RETIRO

Ah, o tempo vivido entre raízes

e grimpas de flamboiãs, o pequi,

a jabuticaba, a goiaba perfumados.

De ninguém, o amanhã.

O dia aceso no alpendre

de hortênsias, antúrios

e capim santo

Tardinha e madrugada

a mesma luz de lampião

nos augúrios do campo

O anel de noiva enterrado no pasto

e a boiada desandada no desfile

de sete de setembro.

Mas ouvia-se

em hi-fi

as big bands.

(Angélita Torres)

OUTONO
Hércio Afonso de Almeida
Eu já corri o mundo,
já rodei a Terra,
já chorei o mar,
já perdi a estrada.
Nas voltas que o  mundo dá,
nos dias que a Terra gira,
nas dobras que a curva quebra,
eu a encontrei.
Aí parei,
sentei praça,
espalhei raízes,
produzi meus  frutos.
Chegou o outono.


O SERTÃO DE CADA UM

Aloísio Brandão, Compositor, escritor e jornalista.

E-mail: aloisiorbrandao@gmail.com

Cada sertanejo tem o seu sertão. O meu ri, de orelha a orelha; tem o coração frouxo de alegria e o miolo puro de bondade. Meu sertão tem nome: Santana dos Brejos. Fica no interior da Bahia, na região do Médio São Francisco. O meu sertão não é de comer acarajé, camarão, peixes de mar, pois que o seu cordão umbilical cultural e afetivo está muito mais ligado a Goiás, para onde tropeiros santanenses, cortando veredas e campinas, iam, levando fumo, rapadura, cachaça, couro, toucinho e carne seca, e de onde traziam a soda para o sabão de bolo, o querosene para os candeeiros. Quando os primeiros caminhões cortaram as estradas esburacadas, partindo de Santana dos Brejos, foram em direção a Anápolis (GO), de costas para o mar que está a mil quilômetros dali.

Tirante o por do sol misterioso e pleno de um alaranjado intenso, como se o poente pegasse fogo, todo dia, sobre os telhados plenos de picumã dos velhos casarões; a prosa lotada de gargalhadas às gaitadas nos bares de Dão de Viana, de Jó, de Dão de Zelão, de Diquinha de Louzinho Farinha Seca, de Valdemar e outros; a molecagem em todas as direções (o santanense é profissional competente na invenção de histórias, de mentiras e de gírias – aliás, ele detesta importar as histórias e as gírias fracas, sem graça, dos programas fuleiros de humor que “animam” as TVs) e outras coisas que os sertões dos outros, também, têm de fartura, o meu sertão possui coisas invisíveis que só o santanense vê, porque está equipado com um tipo de maquinário próprio para se ver o invisível. Maquinário criado nas oficinas de ternura, inventividade e presepadas do povo da cidade e das roças de Santana dos Brejos.

Os irmãos Caia e Nego de João Flores, Zó de Oscar, Zé Bigode, Sancler Queiroz, César de Benedito, João Machado Vilas Boas e Tom Vilas Boas, Ivan Braga e outros adquiriram esses equipamentos e podem ver o que não se vê. Em verdade, poucos, em Santana dos Brejos, não os têm.

Há alguns que são adotados como filhos amados da cidade, como o poeta e jornalista Vicente Sá, de Brasília. A cidade que o pariu com o coração, claro, não se descuidou: deu-lhe, também, o maquinário de ver o invisível. Se bem que Vicente já tinha outros maquinários de nascença. O também jornalista e poeta Álvaro Kassab (o Russo), de Campinas (SP), foi batizado com águas santanenses e a ele foi concedida a propriedade dos mesmos equipamentos.

Faleiem Ivan Braga(Ivan de Aurelino). Ele vive apoderado de uma poesia orgânica, visceral. Certa feita, embriagado dessa poesia e de prosa, e sob um calor de mais de 40º, naquele meio-dia de dezembro de 1985, deitou-se sobre o calçamento de pedras fumegantes e, ato contínuo, deu 30 cambalhotas, enquanto berrava versos atrás de versos, como se, não fazendo aquele movimento tresloucado, as palavras perfeitas que brotam de sua verve poética não viriam para fora.

E ninguém viu aquela diabrura dos 300 romãozinhos incorporados no poeta sobre as pedras escaldantes, embora tudo acontecesse, em pleno meio de uma rua comercial movimentada. Só Paulão de Pimba e Didi de Teté conseguiram captar a silhueta do destemperado girando sobre o seu próprio eixo e lançando poemas de arrepiar. Os dois só viram a cena, porque têm olhos de ver o invisível. Em seguida, Ivan Braga roeu duas dúzias de pequi e arrotou alfazema. E só Paulão e Didi perceberam a fragrância vazada de sua garganta.

De sorte que o sertão de Santana dos Brejos vive fora da fôrma (com o extinto acento circunflexo mesmo) dos demais sertões e só pode ser captado, muitas vezes, de relance e num canto do olho, pois que é fugaz. Ou num gesto (típico) apenas sugerido; no cheiro fugidio que uma chaminé deixa escapar da cozinha; na palavra não dita, no riso de fora para dentro, na dor sussurrada, na luz branca da lua sobre a estrada do Curral Novo, no assovio inaudível de uma música que vem de um século distante; no olhar manso de anjos idosos, como meu pai, Seu Benedito, tão leve em seus 98 anos de idade, e do doce ruído de suas marteladas sobre a faca, na busca lenta para arrancar uma lasca de rapadura, após o almoço (esse som acompanha-me, desde menino).

Ou na flor incrustada entre as lajotas do calçamento que, de tão pequenina, não é percebida; no aboio tão distante que o vento traz e leva, fazendo imaginar que não passa de um equívoco dos ouvidos; no som arredio e impreciso do avião teco-teco anunciando-se pelos ares, faltando, ainda, muitos minutos pra dar o ar de sua graça férrea sobre o céu santanense; no sorriso farto de Zó de Oscar querendo dizer além do que mostra o branco dos seus dentes.

Ou no silêncio profundo que se apodera dos moradores da Rua Amazonas (Rua do Tatu Gordo) esparramados pelas calçadas, quando o fim da tarde alcança a cidade e vaza os seus amarelos e lilases; no eco das doces gaiatices de Pedrinho Fecha-o-Tempo, o nosso mais torto bardo que, quase sempre embriagado, saía pelas madrugadas berrando seus versos meio incompreensíveis que quebravam o silêncio da velha cidade com sua voltagem de surrealismo; nas moças lixando os calcanhares com cacos de telhas guardados com tanto zelo; na sisudez de Marcelina, a lavadeira de roupa de minha casa que não dizia palavra, não arriscava canto nenhum, no riacho, mas sabia rir fora do corpo, ao ouvir as colegas esfolarem as gargantas com seus cantos, porque, cá pra nós, não se lava roupa só com sabão de bolo e o adjutório de pedras de anil e de folhas de mamoeiro para alvejá-la, mas também com o canto puxado de antigas gerações; nos meninos uniformizados e danados que saem (hoje, só na lembrança), em correria de boiada estourada, do Ginásio de Monsenhor, ao fim de cada dia de aula.

Portanto, o meu sertão é o que só pode ser apreendido pela nostalgia alegre que se apossa dos domingos, com mulheres e suas empregadas lavando as calçadas e cantarolando uma música inexistente; pelas peles roçando peles (do povo das roças com os da cidade) no sertanejíssimo restaurante de Izabé, aos sábados, dia de feira, como se, roçando as peles, misturassem-se almas, sotaques e os jeitos diversos dos santanenses; em Bruno de César de Seu Benedito, montado, o dia inteiro, em seu cavalo Ligeirinho, como se este fosse uma parte sua; em César de Seu Benedito puxando, sabe-se lá de onde, em sua flautinha doce, uma musica tão distante e bela que traz para si um magote de pardais e sabiás que assenta-se sobre as cordas da rede onde ele, deitado, vagueia o olhar em busca de arte, mas os três amigos sentados à sua volta não percebem os passarinhos; no eco da voz rachada e firme de D. Lala arrancando da garganta o Hino de Nossinhora do Perpétuo Socorro, ainda que a sua voz densa e firme silenciasse-se, há uns 25 anos, deixando ecos e um espaço que não se ocupa.

O meu sertão pode ser captado, também, no motorista João que, embebido de nostalgia, já chegando, em Correntina, a caminho de Santana dos Brejos, pára o ônibus no quase não-acostamento da estrada e passa o volante a outro motorista, sob a seguinte alegação: “Gente, quem vai dirigir, daqui pra frente, é fulano, porque eu preciso cantar, agora, com esta lua cheia nascendo em minha frente”.

João senta-se na escadaria do ônibus e, de começo, traz “Flor do cafezal” (Luiz Carlos Paraná), imortalizada na voz da dupla Cascatinha e Inhana. O canto de João arrasta os cantares dos outros passageiros emocionados, de sorte que, quando o ônibus desliga o motor, em Santana dos Brejos, duas horas depois, ninguém se importa com os parentes acenando do lado de fora, ninguém quer desembarcar, ninguém quer parar a cantoria, porque ninguém consegue desapear dessa emoção tão volumosa.

E que dizer de Nicinha de Lê, a locutora que tinha a garganta forrada de algodão doce e penas de beija-flor? O seu programa “Musical Record”, transmitido pelo seu “Serviço de Alto-falante a Voz Recor”, com quatro potentes projetores para toda a cidade, continua tocando “Harbor Lights”, com Billy Vaughn”, mesmo tendo saído do ar, há 30 anos, para sempre. Quando se iniciava, às 8 da noite, a população de Santana dos Brejos, que não conhecia televisão, preparava os seus corações para duas horas de pura ternura, poesia, paixão e música contidas no “Musical Record”. E se entregava, rendida, à palavra macia de Nicinha.

Se há uma coisa curiosa entre as coisas curiosas do santanense que mora, em Santana dos Brejos, é a sua xenofobia (saudável, diga-se de passagem). E um certo “socialismo leigo”, como diagnosticou, em 1981, quando passava férias, em minha casa, o meu parceiro de música Flávio Faria, sociólogo e economista.

O santanense comove-se, ao receber um hóspede, e ri, brejeiramente, com a presença do forasteiro, em sua casa. Manifesta o seu mais puro e sertanejo orgulho em abrigar o chegante, cede a sua cama, esmera-se na cozinha e convida os vizinhos para partilharem daqueles momentos de felicidade.

Mas quer ver o santanense sentir-se desconfortado? É quando o mesmo forasteiro pergunta-lhe se ele quer vender a sua terrinha. O santanense é ligado à terra, não apenas por uma relação patrimonial, mas por um elo afetivo. De sorte que a sua terra é algo imaterial e traz em si um elemento invisível que só ele – o santanense proprietário – consegue ver, ao passar numa baixada, à beira da pequena aguada à sombra duma gameleira, no jeito de abrir a cancela ou de tocar o gado para o curral. Portanto, há, na terra, algo de invisível. Sua terra vem do tataravô, atravessara gerações, até chegar aos proprietários da atual geração.

O pior de se ir a Santana dos Brejos é sair de lá. Tenho que experimentar esse sentimento doloroso, duas ou mais vezes por ano. Chegar é como se fosse da primeira vez: a alegria, a vontade de sair correndo para ver os amigos, os vizinhos, os parentes; os cheiros da infância no quarto, nas ruas, na cozinha; os sabiás que vêm cantar nas árvores da rua, o rádio postado e pronto para invadir a casa com música. Enfim, chegar é como se chegasse, há 32 anos.

Sentimento bom é chegar e ouvir D. Neinha Vilas Boas, a nossa querida vizinha, cantando baixinho uma de suas valsas preferidas. A voz afinada e terna passa pelas paredes que separam as nossas casas, vara o telhado e os nossos poros. Às vezes, chego a Santana dos Brejos e fico por casa, algumas horas, numa conversa boa com o meu pai. E não ouço a voz de D. Neinha. Deve estar, lá para dentro, numa ocupação que não a permite cantar. Então, chego ao muro e imploro: “Ê, D. Neinha, a senhora pode cantar, aí, por favor”. E ela: “Ô, meu filho, já vai”. E, lá, se vem a beleza em voz.

Sair de Santana dos Brejos, pela centésima vez que seja, é como deixá-la da primeira vez. Uma tristeza seca e cortante vem chegando, há dias antes da viagem, e se esparrama e cresce por dentro, como se fosse vazar pela pele. Sair de lá é como receber uma facada, sem defesa. É a hora em que vejo os olhos do meu pai marejando e querendo dizer coisas que não precisam ser ditas. Ele, que cantarola baixinho de alegria, agora, assovia uma cançãozinha para disfarçar a tristeza.

Na véspera da viagem, ouço a “Ave-Maria Sertaneja”, na voz de Luiz Gonzaga, saindo das caixas de som (elas substituem os velhos alto-falantes de antigamente) penduradas nos postes de luz e que transmitem o programa da Hora do Ângelus, apresentado por Gringo. Agora, estico o olhar e bebo, num gole, 40 anos que me levam à infância, ao ver, do portão principal do Ginásio de Monsenhor, através do Beco de Edilson Martins, os arcos da Igrejinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro a uns400 metrosdali. E fico arrepiado, diante da vista tão singela.

Falta pouco mais de uma hora para o embarque. Os olhos estão apertados e bate uma sensação de ser vencido pelo destino de viajar, viajar. De voltar para Brasília. Mas uma tribulação põe-me fora de casa. Acho que dá tempo, ainda, de rever ruas e pessoas (passo vinte e tantos dias de férias, em Santana dos Brejos, e vejo essas ruas e essas pessoas, o dia inteiro, mas é pouco) por, pelo menos, mais uma hora. Tomo a velha Rua da Barrinha, desço até a Praça da Igrejona (a Matriz) e, dali, levado apenas pelas mãos da saudade e de uma emoção que entorpece, apresso o passo, como se fugindo de mim mesmo.

Estou em frente ao Bar de Dão de Viana. Entro, vejo os rostos felizes de amigos de infância que estão chegando de suas roças para tomar uma bebida para o almoço, sem sofrer o drama de ter que ir embora da cidade. Tomo uma cachaça com a aromática e deliciosa umburaninha de cheiro. A talagada atiça-me a ir um pouco além, e peço uma cerveja.  Àquelas alturas, os amigos, ali, já sabem de minha volta a Brasília, logo mais. Chegam outros amigos para a rotineira cerveja do meio-dia.

Arrisco mais uma cerveja e mais outra. E decido: agora, sou eu quem vai vencer o destino de voltar para Brasília, de viajar, viajar. E, como se alguém chegasse um lume mais para perto de minha inteligência, do meu espírito e de minha emoção, resolvo perder o ônibus, propositalmente. E fico, no Bar de Dão, rindo de orelha a orelha, como se tivesse inventado a fórmula de ser feliz. Inicialmente, não conto a ninguém de minha decisão. Mas ela é tão perceptível, que os amigos desconfiam: “Que tanta alegria é essa, duma hora pra outra, rapaz?”.

E, comemorando, revelo: “Não vou mais hoje”. Eles regozijam-se comigo. Uns inventam uma desculpa esfarrapada, talvez para solidarizar-se comigo e reforçar a minha decisão, estando eu certo ou não: “Cê tá certo. Hoje é quinta-feira. Deixa, logo, pra ir, no domingo”.

E eles estão mesmo com a razão. Uma nova alegria explode, aqui dentro. Um cheiro de carne assada toma conta do bar apertado de Dão. É o próprio improvisando um churrasco para servir de cortesia. Gente na calçada, gente do lado de dentro do balcão (os clientes é que se servem), gente sentada às poucas mesas, genteem pé. Omundo, realmente, é belo.

Um menino passa na ruazinha em frente ao bar, montado num cavalo em pelo e, com a autoridade de quem parece sentir a alegria que me encharcou o peito, desde que se plantou em minha cabeça o adiamento da viagem, dirige-me um positivo infantil com o dedo. E a minha emoção ponga na garupa em pelo do seu cavalo. O menino desce em direção ao riacho que passa, logo atrás, onde borboletas amarelas festejam aquele início de tarde.

A cidade, sempre tão linda, agora, está completamente luminosa, arrebatadora, e dos seus telhados velhos e enegrecidos de picumã sai uma música e uma luz de se ouvir e de se ver apenas com os ouvidos e os olhos de dentro. É a música de se ouvir quando não se vai, mas se fica. Já consumada a decisão de ficar, vou em casa, apanho um vinho e toco para a casa do meu amigo Doquinha.

Sem um aviso prévio – coisas que só a nossa amizade nos faculta fazer – entro, vou à cozinha e digo pra ele e filhas: “Vou almoçar, aqui, hoje”. Gelo o vinho e o bebo com Telma, filha de Doca, tendo a companhia sempre maravilhosa do amigo Marcos Flores Malaquias e do próprio Doquinha. É preciso comemorar mesmo a perda do ônibus. É como se eu vencesse um inimigo.

O diacho é que o domingo virá, inexoravelmente. E, faltando pouco para a partida adiada, fujo de casa novamente em busca de… Sei lá o que. De – quem sabe – beber a cidade e levá-la comigo. Chego à Praça do Mercado, passo em frente ao Bar de Zeca de Chicão e, de relance, vejo o meu amigo Bau debruçando-se sobre o freezer horizontal. Dali, ele extrai uma cerveja enevoada de tão gelada, e a serve a um cliente. Melhor fingir que não vejo aquilo.

“Não posso cair nessa tentação, Bau”, penso, desviando o olhar do bar. Não dá mais para perder o ônibus, de propósito. Mas resolvo andar para gastar a saudade nos poucos minutos que restam. Chego à Praça da Bandeira, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e, pela calçada de Nezinho Pinheiro, chego ao beco do velho Miguel do Carmo, por onde chego à Rua das Pedras, verdadeiro enclave (cultural) dentro de Santana dos Brejos. As suas casas baixinhas, pequenas, acanhadas e pintadas em cores berrantes parecem penduradas num varal.

O bar de Antonhão, de uma portinha só e plantado ao fim do beco, expõe a garrafaria de cachaças com raízes, cascas e sementes. Sobre a prateleira mais alta, está o nego d’água que tanto encantara Thomaz, meu filho. Eu lhe contava, em Brasília, tantas histórias dessas entidades folclóricas dos rios da região e ele, menino, ouvia-as com os olhos arregalados de curiosidade. Até que, certa feita, quando passávamos dias, em Santana dos Brejos, vi as estatuetas de louça, no Bar de Antonhão, na Rua das Pedras.

Em verdade, era um casal de negros com não mais que um palmo de cumprimento. Os seus olhos eram grandes e estranhamente vibrantes e os lábios, vermelhos carmim. Estavam sentados sobre a tábua da prateleira do bar.  Levei Thomaz para vê-los. E ele, com quatro anos, ficou hipnotizado e não arredava pé dali. Agora, ao ver as estatuetas empoeiradas, penso o quanto Thomaz, com 15 anos e 1m90 de altura, irá gozar de minha cara e desdenhar de minha história, assim que eu lhe relembrar dos negos d’água do Bar de Antonhão.

Mas, neste momento, estou no ônibus, já embarcado. Um calor absurdo toma conta da cabine sem ar condicionado. Despedi-me do meu irmão, César, que está próximo à janela, conversando com algumas pessoas, aguardando a partida. Dentro do carro de César, papai espera o momento de retornar para casa e diluir mais esta minha volta para Brasília. Posso vê-lo, procurando-me pela janela. E o velho ônibus, dando solavancos à partida, inicia a viagem que vai deixando uma cidade lotada de passados muito presentes para trás.

ÁRVORE BONECOLÓGICA

Luis Turiba

Impávido como Bin Lader
na hora do tiro fatídico
o vendedor de bonecos
ventila em ares tranquilos
seus inventivos ventríloquos
mantem a espinha ereta
o coraçâo bate em quilo
testa de paralelepípedo
cabelos de espiga de milho
olhar de brilhos em vítreo

(bonecos se movimentam)

No ir e vir da calçada
expõe ele a familhada
primo irmão avô ou neto
quem sabe, o tio canhestro
de bonecos como ecos
palhaços ecos pinóquios
de panos paus cordas trecos
peças tão humanológicas
armadas naquele circo
de bonecos como o mestre
e seus ecos ecos ecos
de uma esquina do Catete
de uma árvore bonecológica
de um vendedor de bonecos
com ecos ecos ecos ecos
que se vão sem repetecos
ecos ecos ecos ecos
até o eterno silêncio

COMUNHÃO DE BENS

Menezes y Morais

Pra início de conversa

eu só acredito no amor

quando o amor é uma festa

EMIGRADOS

Emanuel Medeiros Vieira

Emigrados:

seremos sempre,

emigrados.

Em busca de outro mar,

da última ilha,

seguindo os pássaros,

atrás do último pássaro.

De um mar a outro,

de uma ilha à outra,

e, então, dormiremos,

Uma noite sucedendo-se à outra

ARTESANATO EXISTENCIAL

Climério Ferreira

O lento labor das horas
Tece nomes, lugares, caras
Nas sombras das tardes calmas
O tempo com seus agoras
Cravou tatuagens raras
No fundo da minha alma

LUZES E CAMINHOS

Luiz Martins da Silva

São tantas metáforas

Que se fazem aos caminhos,

Que andar nem é tino

É alegoria de mirar.

Caminho, camino, caminno,

Senda, sendero, chemin,

Caminito, trilha, vereda,

Serventia de andaluzes.

Lâmpada, lamparina, archote,

Lanterna, tocha, fósforo,

Única brasa que seja,

Quanto mais raio, corisco.

Lua, estrela, via láctea,

E ainda que seja a noite, nua,

Espesso breu dos navegantes

Faíscam pedras nos cascos os rocinantes.

E que aos mortos não se neguem lumes,

Pois morrer será a própria eterna treva.

Que se lhes acendam velas, candelabros,

Fileiras ardentes, vigílias de castiçais.

Mas, mais que todas as luzes acesas

São os olhos das musas os grandes sinais,

A nos guiar qual do sol as labaredas,

Pois facho maior que do amor não há farol.


CONTEMPLANDO O PORTO DE NOVA IORQUE

Cassiano Nunes

A Francisco Azevedo

Amo o que há de ambíguo

num porto de mar,

que convida a partir

e ensina a ficar…

Talvez por ter sido

um prisioneiro,

cristalizei em mitos:

navio e marinheiro!

Agora corro mundo…

Não importa onde vá!

Levo comigo a música

do cais do Paquetá!

O VERBO TRANSIDO

Vera Americano

E se o verso

ostentar

uma lágrima

impertinente?

Não será estranho

que sua mão

cruze o oceano

e venha me secar

o rosto

com a delicadeza

de um monge.

Assim

permanecerei

levemente parada

a pinçar –

um a um –

os verbetes do seu

plano amoroso.

 

OS SOBREVIVENTES

 José Godoy Garcia

Quando todos imaginavam a vida sem sentido

chegaram de manhã os sobreviventes,
e levantaram suas moradas, estiveram no rio,
procuravam o rebanho disperso, preparavam
o alimento, cantavam, derramavam
o suor nos campos, faziam fogo à noite
rememoravam o corpo de suas mulheres,
despachavam os barcos, pela manhã.

As chuvas eram sempre bem-vindas,
as chuvas levantavam o pó da terra
e enchiam de confiança a face da vida.
As mulheres viam nascer dentro de si
um novo rebento, os seus ventres cresciam.
Nenhum sinal de confiança quando as mulheres
apareciam de ventre crescido.
Os dias eram os mesmos, a esperança
e a desesperança eram as mesmas.

A ESPERA I

Lourdes Teodoro
dessa nossa língua desconheço as palavras
sou o roceiro miserável, com pouca e árida terra,
sem qualquer ciência dos fertilizantes artificiais.
vou muito devagar,
sequer aprendi a ler as nuvens.
como as formigas, não prevejo as enchentes
e morro muitas vezes
da mesma morte.

LABIRINTO

José de Castro

Desfaz o fio,
desata o nó
desse novelo de lã.
Inaugura de sorrisos
o desenrolar dos dias
na beleza de cada manhã…

Fia novo fio,
inaugura a luz
na face louçã.
Ilumina o labirinto,
trama nova teia
qual Penélope tecelã…

Esquece o desatino,
o ódio de ontem,
o desgosto de amanhã.
Saboreia o destino
trincando de maduro
no brilho da romã…

SONETO ANTIGO

 Anderson Braga Horta

Tanto, tanto de amor me eu tenho dado,
hei-me em tantas fogueiras consumido,
que fora de esperar no peito ardido
nada me houvera de ilusão sobrado.

Porém quanto mais sonhos hei nutrido
deste manancial inesgotado,
mais o tenho, no peito, avolumado:
que mais forte é amor, se dividido.

E se o destino tenho marinheiro,
volúvel me não chamem, ou perjuro:
que do amor sou apenas passageiro,

em porto inda o mais doce, não aturo,
e no mesmo travor do derradeiro
já prelibando estou o amor futuro.

POÉTICA

Fernando Mendes Vianna

Nas quatro paredes do meu quarto

crucificado no crepúsculo

em trêmulos reflexos nos muros,

o mar sorri

um sorriso enigmático e oblíquo.

MENINOS DE MINAS

Vanderlei Timóteo

Festa de gente, gente meninos!

Cada qual com sua loa,

cada qual com seu ladino!

É festa de cantoria,

bate tambor,coração,entusiasmada bateria.

É alegria aos pés da cruz,

é infância no topo do mundo!

Tudo círculo, tudo em volta.

Crianças com tramóias de Jesus.

O HOMEM QUE ALUGA ESTRELAS

Luis de Aquino

Eu tenho estrelas. Muitas.

Não, não sou dono de todas

as que limitam o teto da noite, não.

Sou rico, minha senhora!

Sou dono apenas das cintilantes luzes

que realizam desejos.

Não são minhas meras luzes

de clarear partículas de infinito

ou de orientar navegantes.

Pertencem-me as moradas da magia,

dormitórios de oráculos e duendes

e de fadas altivas e simples.

Minhas estrelas não existem

para formar constelações, apenas: elas

têm sintonia com corações sonhadores,

ansiosos e crentes, pois só mesmo

a estes é dado o dom de sonhar desejos

e fazê-los acontecer.

Por isso, Senhora bela e amada,

rainha de cetro e de sonhos,

aguarda a tua estrela: já se anuncia.

Demora que se mostre, porque é cedo

e cedo-te de gosto e prazer

a estrela que te cabe e é certa.

Ah! Ei-la! Ali, à margem da nuvem

que se abre no céu É tua, essa!

Habita-a e te apossa dela.

Em dias próximos terás por real

o que é ainda sonho. Falta-me a paga,

que recebo adiantado.

E assim que me vir premiado

em moeda de fala e poesia, liberarei a luz

que te trará venturas.

Depois, e quando de regozijo e feliz

puderes deixar minha estrela… É fácil.

Deixa-a no céu. Saberei recolhê-la.

PERNAS DE ANNE DARWIN

 Floriano Martins

Quando me encontras estou entre a loucura e o silêncio,

como quem sussurra inutilmente o próprio destino.

Não faço idéia do que perdi em tuas mãos.

Preciso de um nome onde te esconder.

Um corpo apropriado à confissão que não gostarias de ouvir.

Eu sigo o teu vulto por entre as sombras,

por entre árvores que rastejam sob a chuva.

A noite encharcada de mistério.

Um rosto revelado a cada gesto murmurado.

Preciso de um lugar onde guardar as cenas vividas em teu nome.

A memória amontoando os corpos perdidos sem que pudéssemos ouvi-los.

Ainda procuras por mim?

Eu não saberia dizer quem fui.

Teus pecados não me comovem mais, porém me assustas com a tua ausência.

Quantos ainda poderão rever-te antes que voltes a ser ninguém?

O teu nome me confunde.

Eu simplesmente embaralho suas letras e não soletro mais onde tudo

começou.

ESMERALDA

Cineas Santos

Buscai a alegria

nas mínimas coisas

do teu dia a dia…

6 Respostas para “Poesias,contos e crônicas de amigos

  1. —Bãos dias, cumpadi Bastião!
    —Dia, cumpadi Arfedro, acordô cas galinha hoje, uai! Qui te traiz aqui in casa tão cedim?
    — Cumé qui vai a famia? A cumadi e os minino tão passano bem?
    —Grazadeus tá tudo cumo Deus manda, bamu apiá e intrá pa dentro, a muié cabô de cuá um café e tá assano uns joão-deitado pa mode nóis tirá o jijum.
    —A demora é pôca cumpadi, ieu tô picisano de uma ajuda sua. Já tô arriano cum as carga,tô num mato sem cachorro…
    —Disimbucha cumpadi, qui cara de boi ervado é essa? —Quê qui te contrarêia?
    —As furmiga tão cabano co meu miaral,cas rosêra e a horta de côvi da patroa. Ieu já fui na cidade e comprei furmicida, joguei , mais foi memo qui saí do mato e entrar na capuêra…aí o cumpadi Zefirino contô qui ocê deu fim nas furmiga daqui, vim vê qui veneno qui cê usô.
    —Antão cê veio sabê cumé qui ieu cabei cas furmiga da minha roça né?
    —Uai, nóis semo qui nem se fosse irmão, si o cumpadi pudé e quisé mi contá fico agradicido…
    —Oia, cumpadi, amigo é pressas coisa, num tem segredo não…As furmiga qui tinha nas minhas pranta e no terrêro tava pió qui piriquito na roça, aí, eu mais a muié arresorvemo pegá as furmiga no pulo, caçano és de noitão. Ieu falei prela: —Gitrude vai frevê um carderão d’água quente … Ela freveu e inda levô a lanterna, era só nóis avistá um buraco de furmiga, aí a Gitrude vinha im riba e lumiava e ieu tacava água pelano lá dento.
    —Uai, cumpadi e fizero só isso?
    —Ocê inda acha pôco? Passemo muita noite im claro, eu mais a muié pinchano água quente den’ dos furmiguêro.
    —Cabô ca furmigada das suas terra tudo assim?
    —Cabá, de tudo, ieu acho que num cabô não, mais as bichinha tão de oréia im pe´duns tempo pra cá…
    —Mi ixprica isso cumpadi!
    —Oia, onti memo quando ieu mais a muié vortava da cidade no jipão véio, tava iscuro já, nóis cheguemo e quando é fé, foi a conta de abrí a portêra, os faroli do carro bateu no zói da formigada qui tava na estrada, intão, pensaro qui fosse a Gitrude ca lanterna travêis…Foi um tar de furmiga saí disimbestada pa fugi do rumo, achano qu’eu envinha cá água freveno…

    P

  2. Amigo Guido: Estou postando este poema aqui. Abraços… José de Castro

    PROFUNDIDADE E BELEZA

    Um poema se faz

    com pétalas de estrelas

    com perfume de lua

    e lágrimas de flor.

    O poema nasce

    no brilho do orvalho

    dourando e prateando

    a face das manhãs.

    É feito de alegrias,

    tem cheiro de esperança

    misturada e temperada

    nos cadinhos da dor.

    O poema é esse misto de tristeza

    de profundidade e beleza

    que inebria a alma

    e traz alento ao coração.

    (José de Castro)

  3. Já visitei seu Blog…….minha poesia está escondida onde?.
    Você tem notícias de José Luiz Braga?, quanto ao meu E-mail, faça uma visita nas minhas informações, ele se encontra lá.Vi sua foto. Arrumou um quilinhos a mais, hem!!!!!.
    Grande abraço.
    Jotabêcampanholi.

    • Jotabê:
      Tem que mandar uma poesia sua, escolhida por você para estar aqui nesta seção.
      Viu que eu publiquei sua foto na seção “Foto comentada” relembrando nossos tempos de seleção de elenco para a TV Universitária de Natal?
      Aguardo contatos.
      Abrações

  4. Posso deixar uma poesia minha aqui?
    Amanhecer e ainda sonhar
    No dia que amanhece
    Recordo das lágrimas que foram choradas
    Alívio lavado
    De dores passadas.

    No dia que amanhece
    Recordo de um tempo
    Que não retorna mas relembra
    Saudosos momentos especiais.

    O sol nasce a cada dia
    Ilumina e dá coragem de caminhar e seguir
    Lembrar e sorrir
    Sem ter medo de perder.

    O sol que nasce a cada dia
    Ilumina e dá vontade de enfeitar
    A alma com todos os sonhos
    Sem saber se há de realizar

    A vida se renova
    A cada flor que nasce
    No meio da travessia
    De cada novo caminho.

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