Tristezas em Manuel Alegre

Nesta semana anunciou-se que o poeta português Manuel Alegre, já agraciado com vários prêmios e honrarias, foi o vencedor do Prêmio Camões 2017. Alegrei-me com isso, pois o poeta trilha os caminhos da boa poesia há muito tempo, paralelamente à ativa participação na vida política em seu país. Combateu o salazarismo e lutou em prol da libertação das colônias e, devido a isso, passou vários anos exilado.

Manuel Alegre de Melo Duarte completou recentemente 81 anos. Nascido em Águeda, destacou-se não só na política e na poesia. Foi campeão nacional de natação e ator no Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra. Foi locutor da emissora de rádio A voz da Liberdade, difundindo conteúdos de apoio aos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas e contra o regime do então Antônio Salazar. Seus dois primeiros livros, A praça da canção (l965) e O canto e as armas (l967) foram apreendidos pela censura.

Em tempos de chumbo a poesia flutua leve como uma pluma e se torna mais forte que o aço. Os textos poéticos de Manuel Alegre, em cópias datilografadas ou manuscritas, circulam de mão em mão, gritam na alma de tantos e quantos. Lutou pela liberdade e jamais abriu mão de fazer da poesia o seu principal meio de expressão. Por isso, em 2006, como candidato independente à presidência da república, obteve mais votos que Mário Soares, candidato oficial pelo Partido Social.

Mas agora é a poesia que dá a Manuel Alegre novas alegrias. O Prêmio Camões certamente atrairá novos olhares para a poesia que fez e faz. A impressão primeira e mais forte que tive ao começar a conhecer o universo poético de Manuel Alegre foi com a leitura de Ser ou não ser, poesia brotada à leitura shakespeariana, que termina magistralmente: “Apodreceu o sol dentro de nós/apodreceu o vento em nossos braços./Porque há sombras na sombra dos teus passos/há silêncios de morte em cada voz.”

Em entrevista recente Manuel afirmou que teve uma vida intensa, tensa e densa. Uma vida que justifica sua passagem por este mundo. Ainda bem que em Portugal a poesia e os poetas encontram ainda espaço divulgar o que fazem. Exemplo disso é a presença de Manuel Alegre em um programa de televisão, acompanhado ao piano, lendo duas de suas poesias: https://www.youtube.com/watch?v=6mFKFnKyDEk

Abaixo uma das poesias de Manuel Alegre:

CANÇÃO TÃO SIMPLES

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel do pensamento

à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que não se diz

a fúria em riste do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escrevem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?