Amor,desejo e prazer

A música é antiga, o título é não tem nada de extraordinário e quando o conjunto Roupa Nova a lançou, fez sucesso. Linda demais, uma música de 1985, chamou-me a atenção desde a primeira vez que ouvi devido a uma frase, um conceito presente logo no início: “… te desejo muito além do prazer”. O que seria isso? Haveria uma dicotomia entre prazer e desejo? Pela mensagem musical, sim. Amar é um departamento, desejar é outro e há limites que separa tudo isso do prazer. Essas divagações, conclui, são ideias de poeta.

A música Linda demais é uma composição da dupla Tavinho Paes e Kiko. Como o primeiro é poeta e letrista, além de artista plástico e videomaker, creio ser dele os versos da música. É coisa de poeta, sim. Mesmo sabendo ser bem antiga essa preocupação em delimitar tamanhos e aclarar significados em relação a amor, desejo, paixão, prazer e adoração, foi essa música, essa frase que me fez pensar sobre significados e abrangências de tais vocábulos.

 Reflexões que me levaram a criar meus próprios conceitos a respeito, a alcançar um entendimento maior sobre esses intrincados sentimentos. Sei que cada um tem seus próprios conceitos sobre cada um desses vocábulos e, nesse universo confuso e múltiplo, certamente todos terão razão. O que me dá prazer não será o mesmo que dará prazer a outros. Cada um conjuga o verbo amar, na prática, com carga semântica e cores bem diferenciadas. Que chatice se fôssemos todos iguais, não?

Para mim, tudo que desejo não é alongado pura e simplesmente além do prazer. Não se trata apenas prolongar, mas de buscar desdobramentos no prazer, revestir de eternidades segundos memoráveis, ímpares. Na letra da música, o óbvio é que se está referindo ao prazer como o obtido em um ato sexual. E que, no caso, o prazer não findaria no orgasmo. Um prazer continuado, lado a lado. Com novas e encantadoras

A concepção que se tem é que o prazer carnal, o popular gozo alcançado tanto pelos seres racionais como irracionais, é apenas instintivo, um forte atrativo criado pela natureza como mecanismo de perpetuação da espécie. Cumprido o ritual de acasalamento e se chegando à confirmação de que algo prazeroso começou e findou-se, viriam a tristeza, a melancolia. Isso sedimentou-se desde os primórdios da humanidade. É tão antiga essa constatação que a mesma foi deu origem à famosa expressão latina “Triste est omne animal post coitum, praeter mulierem et gallum” que dá conta de que todo animal é triste após o coito, menos a mulher e o galo. Dizem, que o galo, após coito, canta. Quanto às mulheres, só elas saberão dizer o porquê.

Quem sabe tudo resulte na sutil diferença entre namorar e enamorar. É quando o sentimento de prazer deixa de ser apenas físico, provocando ressonâncias na alma, na mente. Imagens recorrentes vistas em filmes ou em um antigo cartão-postal, quem sabe concebidas por mim em momentos de devaneios, emolduram-se em meu imaginário. Há diálogo mais perfeito do que o de duas pessoas que se amam, plenas de desejo, lado a lado – mesmo sem se tocarem – iluminadas pelas tonalidades de um dia que morre? Um silêncio que diz tudo e é entendido pelos dois. E isso basta para sintetizar tudo.

Volto à música do conjunto Roupa Nova, que se mantém com a mesma formação original de 37 anos atrás, quando começou sua trajetória musical. Ressalto que eles realizaram, em 2009, um desejo antigo de seus componentes, fãs e inspirados pelos Beatles: gravaram no famoso estúdio londrino Abbey Road. O projeto “Roupa Nova em Londres” foi agraciado com o prêmio Grammy Latino como melhor álbum pop contemporâneo brasileiro. De tantos sucessos do grupo, sempre volto a ouvir o Linda de mais, sem nenhuma razão que eu saiba ou me dê conta. Ouvir por ouvir, pelo desejo de recordar, prazer de ouvir uma música das antigas, reviver amores, reavivar desejos, coisas assim. Aqui a música em uma apresentação ao vivo do Roupa Nova:
https://www.ouvirmusica.com.br/roupa-nova/63854/

 

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