Os últimos desejos de Noel

Os últimos desejos de Noel

Fotos e filmagens do compositor Noel Rosa não deixam dúvida. Ele jamais poderia ser rotulado de galã, um sex symbol na linguagem atual. Fisicamente, Noel Rosa estaria mais para patinho feio. No entanto, para quem viveu apenas 26 anos, ter tido tantos amores indica que a fama, a inteligência, o humor e simpatia faziam dele um conquistador. Os pesquisadores da vida de Noel dizem que ele teve, ao menos, cinco grandes amores. Um deles, quem sabe o mais intenso, foi Juraci Correia de Araújo, a Ceci. O próprio Noel Rosa afirmava que a música Dama do cabaré foi composta tendo a Ceci como personagem. Aqui, em uma gravação da música por Orlando Silva://www.youtube.com/watch?v=g1Gpk2h9BOY

Vi fotos da Ceci e constata-se de que era uma bela mulher. Pela sua maneira fina e educada de tratar a todos era chamada de dama. Uma dama que começou a trabalhar no cabaré Apolo, na Lapa, ainda com 16 anos Foi lá, em uma noitada especial caracterizada de festa de São João, que Noel conheceu e começou a se apaixonar por Ceci. Não era difícil se apaixonar por ela, uma bela dama que despertava desejos e amores a quem dela se aproximava. O ator, compositor e escritor Mário Lago, iniciando sua carreira, foi um dos que tiveram um romance com a Ceci. Só que para Noel Rosa, Ceci foi muito mais que uma paixão circunstancial.

Posso ter conhecido alguém em uma festa de São João, mas nenhuma Ceci. Nunca me apaixonei por ninguém conhecida em festas juninas. Diria que apaixonei-me, sim, foi pela música de Noel Rosa. Último desejo é tida por muitos como a obra-prima dentre as 230 músicas composta por Noel. Eu sou um deles. Último desejo apresenta uma letra burilada, uma ideia bem trabalhada. Para os críticos Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, Último desejo é a canção para a qual Noel criou a música exata para sua própria poesia.

Conta-se que em 11 de dezembro de 1936, quando completou 26 anos, e a seis meses antes de sua morte, fez um último pedido à Ceci: passarem a noite juntos, como presente de aniversário. Casado desde 1934 com Lindaura, Noel não escondia seus amores, não largava o cigarro e nem se afastava das noitadas de boemia, apesar de saber-se doente. Desde o primeiro sucesso – Com que roupa – lançado em 1930, Noel Rosa mostrou um rico manancial criativo, apresentando continuamente composições de qualidade, retratando seus amores, sua paixão pela Vila Isabel e as nuances da vida social do Rio de Janeiro de sua época.

Já no leito de morte, cantarolou nota por nota de Último desejo para o amigo e parceiro Vadico. Pediu, como último desejo, que este fizesse uma cópia da partitura da música e levasse para Ceci, o que foi feito. Dois meses após a morte de Noel Rosa, Aracy de Almeida gravou Último desejo. Após, Marília Batista apresentou a gravação histórica da composição que apresentava arranjos primorosos do Oswaldo Gogliano, o Vadico A partir daí estabeleceu-se uma polêmica sobre a melhor interpretação de Último desejo. Para mim, a melhor mesmo é a da Maria Bethania: https://www.youtube.com/watch?v=w6DDmT-Awk0

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A imprensa marrom e o jornal da morte

Amor,desejo e prazer

A música é antiga, o título é não tem nada de extraordinário e quando o conjunto Roupa Nova a lançou, fez sucesso. Linda demais, uma música de 1985, chamou-me a atenção desde a primeira vez que ouvi devido a uma frase, um conceito presente logo no início: “… te desejo muito além do prazer”. O que seria isso? Haveria uma dicotomia entre prazer e desejo? Pela mensagem musical, sim. Amar é um departamento, desejar é outro e há limites que separa tudo isso do prazer. Essas divagações, conclui, são ideias de poeta.

A música Linda demais é uma composição da dupla Tavinho Paes e Kiko. Como o primeiro é poeta e letrista, além de artista plástico e videomaker, creio ser dele os versos da música. É coisa de poeta, sim. Mesmo sabendo ser bem antiga essa preocupação em delimitar tamanhos e aclarar significados em relação a amor, desejo, paixão, prazer e adoração, foi essa música, essa frase que me fez pensar sobre significados e abrangências de tais vocábulos.

 Reflexões que me levaram a criar meus próprios conceitos a respeito, a alcançar um entendimento maior sobre esses intrincados sentimentos. Sei que cada um tem seus próprios conceitos sobre cada um desses vocábulos e, nesse universo confuso e múltiplo, certamente todos terão razão. O que me dá prazer não será o mesmo que dará prazer a outros. Cada um conjuga o verbo amar, na prática, com carga semântica e cores bem diferenciadas. Que chatice se fôssemos todos iguais, não?

Para mim, tudo que desejo não é alongado pura e simplesmente além do prazer. Não se trata apenas prolongar, mas de buscar desdobramentos no prazer, revestir de eternidades segundos memoráveis, ímpares. Na letra da música, o óbvio é que se está referindo ao prazer como o obtido em um ato sexual. E que, no caso, o prazer não findaria no orgasmo. Um prazer continuado, lado a lado. Com novas e encantadoras

A concepção que se tem é que o prazer carnal, o popular gozo alcançado tanto pelos seres racionais como irracionais, é apenas instintivo, um forte atrativo criado pela natureza como mecanismo de perpetuação da espécie. Cumprido o ritual de acasalamento e se chegando à confirmação de que algo prazeroso começou e findou-se, viriam a tristeza, a melancolia. Isso sedimentou-se desde os primórdios da humanidade. É tão antiga essa constatação que a mesma foi deu origem à famosa expressão latina “Triste est omne animal post coitum, praeter mulierem et gallum” que dá conta de que todo animal é triste após o coito, menos a mulher e o galo. Dizem, que o galo, após coito, canta. Quanto às mulheres, só elas saberão dizer o porquê.

Quem sabe tudo resulte na sutil diferença entre namorar e enamorar. É quando o sentimento de prazer deixa de ser apenas físico, provocando ressonâncias na alma, na mente. Imagens recorrentes vistas em filmes ou em um antigo cartão-postal, quem sabe concebidas por mim em momentos de devaneios, emolduram-se em meu imaginário. Há diálogo mais perfeito do que o de duas pessoas que se amam, plenas de desejo, lado a lado – mesmo sem se tocarem – iluminadas pelas tonalidades de um dia que morre? Um silêncio que diz tudo e é entendido pelos dois. E isso basta para sintetizar tudo.

Volto à música do conjunto Roupa Nova, que se mantém com a mesma formação original de 37 anos atrás, quando começou sua trajetória musical. Ressalto que eles realizaram, em 2009, um desejo antigo de seus componentes, fãs e inspirados pelos Beatles: gravaram no famoso estúdio londrino Abbey Road. O projeto “Roupa Nova em Londres” foi agraciado com o prêmio Grammy Latino como melhor álbum pop contemporâneo brasileiro. De tantos sucessos do grupo, sempre volto a ouvir o Linda de mais, sem nenhuma razão que eu saiba ou me dê conta. Ouvir por ouvir, pelo desejo de recordar, prazer de ouvir uma música das antigas, reviver amores, reavivar desejos, coisas assim. Aqui a música em uma apresentação ao vivo do Roupa Nova:
https://www.ouvirmusica.com.br/roupa-nova/63854/

 

Em Macapá parei