Abdon e o Baião de dois

Abdon e o Baião de dois

Logo na primeira vez que ouvi Baião de Dois, a música do Luiz Gonzaga com o Humberto Teixeira, fiquei intrigado com o citado Abdon. A ordem, no início da música, é que ele deixasse a cozinha por ser lugar só de mulher e fosse para a sala, onde estavam os homens. No correr da vida cheguei a ouvir versões sobre o Abdon. Se na música era recomendado que ele deixasse a trempe e a “cuié”, alertando ainda que “home não vai na cozinha”, a insinuação é de que Abdon apresentava uma tendência sexual não compatível com a da maioria conservadora e intransigente daquela época. Afinal, a música foi lançada ao final da década de 40.

A música continua, o tempo passou e hoje é possível ter explicações diferenciadas sobre o comportamento de Abdon. A programação de tevê, principalmente de canais fechados, está repleta de competições sobre a arte do profissional de  cozinha. Já começa concorrida a disputa entre crianças para ver quem é melhor quanto se trata da produção de pratos salgados ou de sobremesas. Todos sonham em ser um rico famoso “chef”, melhor ainda: um “Master chef”. A cozinha há muito deixou de ser um lugar só de mulheres. Hoje todos são iguais perante o fogão.

A verdade é que a música do Gonzagão com o cearense Humberto Teixeira serviu para dar notoriedade ao prato regional – hoje consumido no Brasil todo – conhecido por Baião de dois. À época da criação da música o nordestino padecia com as agruras da seca, período de grandes privações de água e alimentos. Nada podia ser desperdiçado, principalmente em termos de comida, que era racionada, difícil de ser obtida ou produzida em período de perversa seca.

A escassez remetia ao aproveitamento das sobras dos dois mais consumidos alimentos, o feijão e arroz. Devido a isso, começando pelos cearenses, passou-se a utilizar o que sobrava desses dois produtos, juntando com o pouco que se tinha de carne seca e queijo de coalho e assim surgiu esse saboroso prato. Aqui uma receita visual do Baião de dois que encontrei na internet: https://www.youtube.com/watch?v=ZwFHrLptVm0

A música Baião de dois serviu para incentivar a prática de se preparar e consumir o prato misturando o arroz e o feijão de corda. O disco com a música tornou-se mais um sucesso do Luiz Gonzaga. É bom lembrar que a feliz parceria do Lua com Humberto Teixeira deu origem à música Asa Branca, a mais notória composição da dupla. Asa branca – que neste mês de maro de 2017 completa 70 anos de existência, mereceu gravações de artistas de, no mínimo, dez países e é conhecida no mundo todo. E quem disse que Baião de dois ficou restrita apenas ao Brasil? Em 1951 a música foi gravada em japonês, com a interpretação da cantora Keiko Ikuda:https://www.youtube.com/watch?v=2x7WjXtSbDw

O tempo passou e a música Baião de dois ainda é ouvida. O prato criado à época ganhou aperfeiçoamentos culinários e integra a lista dos pratos típicos brasileiros. Fico pensando no citado Abdon, aquele que gostava mais de ficar na cozinha do que estar na sala da casa e que, certamente, tinha talento para se tornar um chef. Ah, Abdon, você nasceu em época errada. Hoje você teria espaço na cozinha de restaurantes famosos e, quem sabe, seria apresentador de tevê de algum programa culinário. Mas não se pode dar volta no tempo. Ao menos você continua sendo lembrado na música Baião de dois, aqui na gravação do Luiz de Gonzaga:https://www.youtube.com/watch?v=fOBWyULjJjM

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